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Grandes eventos debatem a ACV e projetam ferramenta para o mundo

por redação

Realizadas no formato digital, as conferências CILCA 2021, LCM 2021, ACLCA 2021 e GCV-2020/21 contribuíram para ampliar o conhecimento e as experiências em prol da adoção da Avaliação de Ciclo de Vida na tomada de decisão

 

Por Sofia Jucon

 

A Rede Empresarial Brasileira de Avaliação de Ciclo de Vida (Rede ACV) debate em suas reuniões bimestrais Tema Especial, que tenha o potencial de alavancar o pensamento de ciclo de vida e a ACV.

A última, ocorrida em 07.10.2021, focou nos eventos que trataram da ACV no decorrer deste ano, considerados alguns dos principais na agenda da ACV em nível mundial, e que abriram espaço para debater e compartilhar informações atuais sobre a aplicação da ACV nas mais variadas esferas da indústria e sociedade:

  • IX Conferência Internacional sobre Avaliação do Ciclo de Vida na América Latina (CILCA 2021)
  • 10ª Conferência Internacional sobre Gestão do Ciclo de Vida (LCM 2021)
  • Conferência virtual do Centro Americano para Avaliação do Ciclo de Vida (ACLCA 2021)
  • VII Congresso Brasileiro sobre Gestão do Ciclo de Vida (GVC 2020/21)

 

Nesta reportagem vamos mostrar um panorama geral de cada encontro, compartilhar as contribuições para a valorização da ACV, as impressões dos organizadores e suas perspectivas sobre o tema.

 

Ações concretas em prol da ACV

 

Com o mote “Pensar a longo prazo e agir imediatamente”, a série de palestras apresentadas na IX Conferência Internacional sobre Avaliação do Ciclo de Vida na América Latina (CILCA 2021) simbolizou um dos eventos mais significativos sobre ACV e suas ferramentas associadas para toda a região da América Latina. Realizado no formato online entre os dias 31 de maio e 4 de junho, o evento foi promovido pela Rede Iberoamericana de Ciclo de Vida (RICV) juntamente a Rede Argentina de Pegada D’Água (RAHH).

Bárbara Civit, co-presidente da CILCA 2021, informa que convocou as redes nacionais para promover esta edição. “Consultamos todos os membros da Rede Argentina do Ciclo de Vida, e decidimos candidatar-nos fazendo uma apresentação que enviamos por e-mail em maio de 2019. Então, fomos selecionados para sediar a CILCA 2021”. De acordo com ela, aconferência tem sido realizada a cada dois anos desde 2005.

Segundo Bárbara, havia muita expectativa quanto à participação do público porque foi a primeira vez na história da CILCA que um evento completamente virtual foi realizado, e acabou se revelando muito bem-sucedido. “O público era variado, mas quase inteiramente composto por profissionais, acadêmicos e outros atores relacionados ao Pensamento do Ciclo de Vida, sustentabilidade e economia circular. Tivemos entre 150 e 200 participantes, sendo que a participação empresarial tem crescido a cada edição”, informa.

Entre as tendências importantes que esta edição mostrou Bárbara cita que foi notável um grande número de públicos comprometidos com ações concretas em relação à implementação do ciclo de vida, e mais próximos da sociedade, das pessoas comuns.

Esse detalhe, conforme Bárbara, demonstra que a Conferência CILCA contribui para difundir a importância da ACV no mundo inteiro. “Diante disso, pensamos que as expectativas estão sempre em poder mostrar ao mundo o progresso feito na comunidade ibero-americana sobre o assunto, para que o pensamento do ciclo de vida se estabeleça nas empresas, na sociedade, mas, acima de tudo, nos tomadores de decisão com influência política”, salienta.

Bárbara destaca ainda que a ACV está se tornando cada vez mais representativa na comunidade empresarial global, mas ainda há um longo caminho a percorrer. “Os benefícios ainda estão para ser vistos”, observa.

Para Bárbara, a ACV é a única ferramenta que permite avaliar o desempenho ambiental de um produto ou de uma organização, considerando todas as etapas de seu ciclo de vida e muitos impactos simultaneamente. “Mas, ao mesmo tempo, incluindo aspectos sociais e econômicos, dando assim uma visão sistêmica e não limitada a um único aspecto. Assim, garante a sustentabilidade na produção e no consumo”, ressalta.

A próxima edição da CILCA será em 2023, no Chile.

 

LCM na era da digitalização

 

A série de conferências LCM (Life Cycle Management) – Conferência Internacional sobre Gestão do Ciclo de Vida, é um dos principais fóruns do mundo para sustentabilidade ambiental, econômica e social. O foco está em soluções práticas para a implementação de abordagens de ciclo de vida na tomada de decisões estratégicas e operacionais, seja na ciência, indústria, ONGs ou instituições públicas.

O evento ocorre a cada dois anos, sempre organizado por uma instituição de pesquisa e indústria líderes no domínio. A primeira edição aconteceu em 2001, em Copenhagen, na Dinamarca. Em 2021 a conferência LCM fez sua 10ª edição em Sttugart, na Alemanha, entre os dias 5 e 8 de setembro, sob o tema “Construindo um futuro sustentável baseado na inovação e na digitalização”.

Para fomentar seu propósito de ser uma rede de aprendizado e compartilhamento, a Rede ACV participa dos debates internacionais e contribui com as experiências que são desenvolvidas no Brasil. No LCM 2021, ela moderou painel sobre arranjos empresariais no mundo, compartilhando sua própria trajetória, desafios e oportunidades da gestão empresarial orientada à ACV no país.

Matthias Fischer, presidente da LCM 2021 e chefe do Departamento de Engenharia do Ciclo de Vida, informa que esta edição contou com 655 participantes de 45 países, sendo a participação empresarial com cerca de50% do público, volume que está em sintonia com as conferências anteriores da LCM.

“Como foi a primeira LCM virtual, várias coisas foram diferentes das conferências anteriores e é difícil extrapolar as tendências. Mas, em geral, a digitalização em várias formas está ganhando mais importância e os tópicos de sustentabilidade e ACV são mais relevantes do que nunca. Eles agora são mais convencionais”, aponta Fischer.

Segundo o executivo, as expectativas para as próximas conferências são: seguir a tradição da LCM, reunir ciência e negócios, ser a plataforma para compartilhar soluções de sustentabilidade e histórias de sucesso, e criar valor agregado. “O objetivo principal é fortalecer a rede LCM como a rede global de sustentabilidade”, ressalta.

 

Protagonismo das consultorias

 

A Conferência virtual do Centro Americano para Avaliação do Ciclo de Vida (ACLCA), realizada entre os dias 21 a 24 de setembro de 2021, reuniu a comunidade por quatro dias para aprender, colaborar e criar o futuro da ACV e do pensamento sobre o ciclo de vida.

Beatriz Kiss, do Departamento de Desenvolvimento Sustentável da Braskem, participou desta edição e conferiu que o ACLCA é o congresso mais importante de ACV na América do Norte, que reúne profissionais, consultorias, empresas, estudantes e representantes de governo para debater o tema. Para ela, participar do evento é importante para conhecer os assuntos e desafios da região, bem como se atualizar com novo desenvolvimento, tanto técnicos quanto cases aplicados.

“É sempre interessante traçar um paralelo entre o que acontece no Brasil e no resto do mundo, pois muitos desafios da ACV são comuns, mas há questões locais (principalmente aquelas ligadas à legislação) que podem ser bem distintas; é uma forma de se manter atualizado!”, salienta Beatriz.

Assim como na edição passada (2020), Beatriz conta que o evento foi realizado 100% online. Como ela ainda não conseguiu participar da edição presencial, sente que as conexões com as pessoas ficam bastante prejudicadas nesse formato. Ainda assim, Beatriz considera que o evento foi muito dinâmico e trouxe temas e palestrantes interessantes.

“Além das clássicas sessões de apresentação de trabalhos acadêmicos e casos (de empresas e/ou consultorias), tiveram sessões de debate aberto (exemplo sobre o futuro da ACV, sobre ferramentas, sobre o que motiva os profissionais de ACV) e também atividades de descontração como aulas de yoga, culinária sustentável e quizzes”, conta a executiva.

Entre os diferenciais da ACLCA, comparando com o GCV (Brasil) e o LCM (Europa), a especialista diz que viu um grande protagonismo das consultorias locais. “Desde empresas mais estruturadas até consultores individuais, notei grande envolvimento e contribuições interessantes de casos e exemplos de ACV aplicada – fato que não vemos tanto nos demais eventos citados”, observa Beatriz.

Ela também destaca as seções que debatem aspectos regulatórios e sua conexão com a ACV. “Isso demonstra que a ferramenta tem ganhado força também no contexto regulado e que pode ser utilizada para guiar/orientar/mensurar avanços em sustentabilidade como gestão de resíduos, incentivos a reciclagem, uso de energia renovável, rotulagem de produtos, entre outros”, menciona.

 

OAB para acevistas

 

Para as edições futuras, Beatriz expressa que seria maravilhoso poder participar da próxima edição presencial e explorar as possibilidades de troca, atividades em grupo e debates com a comunidade de ACV. “Na versão online ficamos limitados apenas a fazer perguntas para os palestrantes, infelizmente”, explica.

Em relação às experiências de eventos como a ACLCA podem ajudar no desenvolvimento da ACV no Brasil, Beatriz afirma: “vejo que a comunidade de ACV brasileira tem crescido muito e ganhado relevância no contexto internacional. Porém, no contexto americano, sinto que ainda há muito a ser explorado. Por exemplo, vi no ACLCA exemplos e casos no Chile e Colômbia e imaginei que poderíamos ter também exemplos brasileiros sendo expostos ali”.

Outro aspecto interessante que Beatriz aponta é que nos EUA existe uma certificação de profissionais de ACV (como se fosse uma OAB para acevistas). “Acho fantástico que a prova de certificação acontece nos dias que antecedem o congresso e gostaria de ver no Brasil algo semelhante. Seria útil para os profissionais comprovarem seus conhecimentos e expertise no tema e também para aqueles que buscam/contratam profissionais de ACV. Abriria espaço para novas pessoas no mercado (ainda restrito no Brasil), o que deveria fomentar também a inserção da ACV em cursos de graduação e pós”, explica.

Sobre as possibilidades que ela enxerga para a visibilidade do tema no Brasil, Beatriz acredita que toda a comunidade brasileira de ACV tem desempenhado papel exemplar, desde as empresas, passando pela Rede ACV e demais organizações como Embrapa, PBACV e ABCV.

“Essas organizações ajudam a ampliar o uso e os conhecimentos de ACV no Brasil, gerando interesse de novos atores e disseminando toda a gama de aplicações dessa ferramenta. Da mesma forma, universidades e centros de pesquisa tem contribuído para desenvolvimento de novos dados, metodologias e aprimoramento da técnica, bem como, formado profissionais que darão continuidade aos trabalhos no futuro”, salienta Beatriz.

Além disso, Beatriz pontua que quanto mais pudermos explicitar os diferentes usos da ACV no contexto empresarial, mais o tema poderá crescer. “Muitas empresas não conhecem a ACV e acabam não utilizando a ferramenta por pensar que é muito complexo, muito caro, muito difícil de interpretar. É um processo lento para se desenvolver o conhecimento, mas as possibilidades são enormes uma vez que a ACV passa a fazer parte do conjunto de ferramentas e estratégias para a sustentabilidade corporativa”, avalia.

 

A trajetória de sucesso da experiência brasileira

 

Presidente da ABCV – Associação Brasileira de Ciclo de Vida, que realiza o CBGCV –Congresso Brasileiro sobre Gestão do Ciclo de Vida, o professor Gil Anderi da Silva conta que a ideia de um congresso sobre ACV estava nos planos da ABCV, desde sua criação, em 2002. Esta ideia começou a tomar corpo em 2005 quando aconteceu a realização do primeiro CILCA, na Costa Rica, oportunidade na qual foi decidido que a segunda versão do evento seria no Brasil, em 2007, promovida pela ABCV.

“No período de 2005 a 2007 os esforços e os (parcos) recursos materiais e humanos da ABCV foram concentrados na organização e realização (em São Paulo) do CILCA 2007 que, avalio, foi um sucesso, com 152 participantes, sendo 115 de 10 estados do Brasil e 37 de outros países”, informa o professor. Ao final do evento, a então diretora da ABCV, professora Cássia Ugaya, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, ofereceu-se para promover o 1o CBGCV. O evento ocorreu, de forma exitosa, em Curitiba, em 2008. De lá para cá foram realizadas as seguintes edições:

  • 2010 – Florianópolis – Universidade Federal de Santa Catarina;
  • 2012 – Maringá – Universidade Estadual de Maringá;
  • 2014 – São Bernardo do Campo – Universidade de São Paulo/Faculdade de Tecnologia SENAI;
  • 2016 – Fortaleza – EMBRAPA Agroindústria Tropical;
  • 2018- Brasília – IBICT;
  • 2020/2021 – Gramado – Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

Em 2021, o VII GCV, foi realizado entre os dias 18 de setembro a 01 de outubro. Esta edição trouxe como tema principal as Contribuições para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Thiago Oliveira Rodrigues, pesquisador, que atua na Coordenação de Tecnologias Aplicadas a Novos Produtos do Ibict – Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, observa que o evento é o momento de encontro da comunidade ACV brasileira, quando os profissionais se atualizam sobre os avanços das pesquisas, conhecem novos atores e definem rumos. “É a ocasião para pensarmos a ACV no contexto nacional e internacional, como a técnica pode apoiar a sustentabilidade”, pontua.

Thiago conta que na edição de 2021 tiveram a brilhante organização da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Litoral e do grupo de pesquisa Life Sustainability. A professora Ana Passuello e sua equipe conduziram com maestria o GCV mais desafiador de todos. A pandemia provocou uma corrida para aprender uma nova forma de realizar congressos e ainda cativar os profissionais e estudantes a participarem e interagirem. O resultado foi surpreendente! Recebi muitas manifestações positivas sobre o evento, sobre a organização, sobre os temas, sobre as interações”, detalha Thiago.

Thiago lembra que a participação de empresas é essencial para o evento. Conforme ele, o GCV não é um congresso científico, os participantes querem ver a aplicação da técnica em casos reais, identificar as dificuldades e oportunidades. “Assim, é na indústria que conseguimos perceber a efetividade da ACV, é ela quem pode validar a ferramenta. E as empresas têm tido papel de destaque no GCV. A Rede ACV é uma grande força, sempre parceira do GCV, incrementando sobremaneira a qualidade das discussões no congresso”, completa.

Sobre as tendências a partir da realização da edição 2021, Thiago observa que ainda é cedo para avaliar, mas tanto no GCV quanto em outros congressos, a aceitação pelo modo remoto tem crescido. “A plataforma desenvolvida para o GCV foi muito bem aceita e elogiada. A previsão é que as próximas edições passem a ser híbridas (remoto e presencial), mesmo que não tenhamos mais as restrições impostas pela pandemia”, diz.

 

Expectativas positivas para a adoção da ACV

 

A participação de especialistas renomados e a possibilidade de interação com diversos atores interessados no tema em nível global enriquecem os conteúdos e mostram que a ACV é um caminho assertivo para o desenvolvimento sustentável.

“O desenvolvimento sustentável só pode ser validado por métricas confiáveis, que consigam mostrar em números que as necessidades das gerações futuras estão sendo asseguradas com um atendimento racional da geração atual”, afirma Thiago. Ele acredita que a ACV é provavelmente o método mais adequado para essa validação e para indicar os pontos críticos nos sistemas humanos, que consomem os recursos naturais e geram resíduos e poluição.

“A abordagem sistêmica da ACV, atenta às externalidades e ‘trade-offs’ e seu constante desenvolvimento (uma técnica com congressos nacionais e internacionais periódicos, revistas científicas dedicadas) fazem da ACV uma ferramenta que serve tanto de raio-x quanto de bússola para o desenvolvimento sustentável no Brasil”, conclui Thiago.

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