Fabiano Bender Machado;
Tecnólogo em Processos Ambientais formado pela Faculdade SENAI de Tecnologia Ambiental (?Escola SENAI Mario Amato), São Bernardo do Campo, no Curso Superior de Tecnologia em Processos Ambientais
Orientado por: Prof. MSc. Antonio Donizetti Giuliano
Objetivo
A Floresta Pluvial Atlântica cobria toda a costa leste do Brasil, do sul ao norte, e hoje está reduzida a poucos remanescentes isolados (Instituto Florestal, 2006). No Estado de São Paulo, muitos esforços têm sido empregados para recuperar as áreas degradadas, porém os resultados obtidos não atingem os objetivos propostos, que é implantação de florestas com capacidade de regeneração natural. A utilização de poucas espécies, aliada a projetos que não contemplam a ativação das interações naturais e o surgimento de novas formas de vida tem gerado esse quadro (Barbosa, 2006).
O gargalo da produção de essências nativas encontra-se principalmente na dificuldade de obtenção de sementes, uma vez que os remanescentes vegetais que podem fornecê-los estão em áreas de preservação permanentes, onde não é permitida a coleta de material vegetal (Barbosa, 2006).
O presente trabalho teve como objetivo buscar propostas para solucionar essa problemática, avaliando a transposição de espécies nativas da região litorânea do Estado de São Paulo para a região de planalto, de forma a analisar o seu desenvolvimento, permitindo disponibilizar uma maior variedade de espécies a serem utilizadas em projetos de recuperação de áreas degradadas, contribuindo para a implantação de florestas sustentáveis e garantir a qualidade de vida e preservação da fauna e flora.
A vegetação ao longo da costa litorânea do Estado de São Paulo, que envolve o município de Bertioga, também local do objeto de estudo, está inserida na formação vegetal de Restinga, que segundo Rizzini (2002), recobre as planícies costeiras, desde a praia até as primeiras elevações da Serra do Mar. Esta é caracterizada por não sofrer influência do solo, que serve de suporte para sustentação da vegetação, oriunda em grande parte das montanhas, uma vez que a região possui formação geológica recente. Guedes et al. (2005) sugeriu que a vegetação da restinga é adaptavel a mudanças bruscas de tipos de solo, regime hídrico, gradientes de luminosidade e intervenções antrópicas no ambiente. Diante dessas informações, é possível que indivíduos originários do litoral possam desenvolver-se em outras áreas.
Para avaliação da hipótese, optou-se por realizar o resgate de espécies jovens para produção das mudas. Coletaram-se plantas jovens de 80 espécies nativas da Mata Atlântica no município de Bertioga, em janeiro de 2011, que foram plantadas em sacos plásticos, para avaliação de seu desenvolvimento e tolerância ao transplante. A transposição será realizada quando os indivíduos estiverem aptos ao plantio em campo aberto,plantio este, que será realizado no município de São Bernardo do Campo.
Materiais e métodos
A coleta das essências nativas realizou-se em propriedade particular de 2700 m2, localizada na Rua José Costa 79, Boraceia, no Município de Bertioga, Estado de São Paulo. Do total do lote, 2000 m2 são de áreas ajardinadas, que preservam 53 árvores nativas em diferentes estágios de desenvolvimento e 29 provenientes de outros biomas brasileiros ou exóticas, além de outras espécies vegetais comuns a formação florestal original em que está inserido. A abundância de abrigo e alimentação fornecidos, aliada a proximidade com duas importantes reservas de preservação permanente (Parque Estadual da Serra do Mar e Parque Estadual da Restinga de Bertioga, nota do Autor), atraem exemplares da fauna local, disseminando sementes e propágulos que resultam em grande quantidade de plantas jovens, suprimidas durante os trabalhos de manutenção.
Para realização do estudo foram selecionados indivíduos que possuíssem exemplares já adultos na área ou adjacências, permitindo a coleta de material para identificação a ser realizada em herbários e consultas a taxonomistas. Para fins práticos, os indivíduos foram previamente identificados de acordo com o manual de identificação de espécies arbóreas nativas de Lorenzi (2002). Quando não foi possível o reconhecimento através dos referenciais utilizados, chamou-se de ?espécie não identificada?.
Coletou-se um mínimo de 4 unidades de cada espécie, para realização do posterior plantio no município de São Bernardo do Campo, Região Metropolitana de São Paulo, permitindo a comparação dos índices de crescimento obtidos.De acordo com os resultados obtidos nas metodologias propostas por Nave (2005) e Callegari (2009), foram retirados manualmente plantas de até 20 cm de altura, pois até esse limite apresentam elevado índice de sobrevivência, tomando-se o cuidado de não danificar as raízes durante o arranquio.
Para análise do desenvolvimento das espécies, foi utilizada a metodologia proposta por Costa (2005), na qual são tomadas as medidas da planta da base do tronco a até a bainha da última folha e análise do desenvolvimento do caule, tomando-se a medida do mesmo com um paquímetro na altura de 5 cm a partir da base. A proposta de análise de massa seca não foi utilizada, uma vez que o número reduzido de exemplares não permitiria a eliminação para dessecamento. Dessa forma, procedeu-se a primeira tomada de medidas imediatamente após a coleta e antes do plantio em sacos plásticos individuais, preenchidos com substrato preparado de acordo com a metodologia proposta por Wendling e Gatto (2002), para o qual foram utilizados areia de construção, terra comum, material obtido pela retirada da camada superficial de solo na região de do Município de Mogi das Cruzes, Estado de São Paulo (Informação do fornecedor, Flora São Sebastião Rodovia Rio-Santos km 205, São Sebastião, São Paulo) e esterco bovino, nas proporções de 1:1:2, propiciando a aeração e facilidade de penetração e escoamento da água, além de disponibilizar matéria orgânica e nutrientes as plantas. Após o plantio, as plantas foram irrigadas.
O local utilizado para adaptação das espécies não dispõe de estrutura de abrigo para a atividade realizada, como viveiros ou casas de vegetação, exigindo a alocação das mudas sob árvore existente no local, garantindo as mesmas condições ambientais de umidade e temperatura anterior ao arranquio.
As plantas foram coletadas em janeiro de 2011 e após o plantio, foram mensalmente avaliadas para tomada de medidas e anotações referentes a seus índices de crescimento, de janeiro de 2011 até a presente data.
A manutenção seguiu o mesmo cronograma das avaliações. Foram retiradas manualmente plantas invasoras que brotaram naturalmente no substrato utilizado. A rega ficou a cargo das águas pluviais, uma vez que não havia disponibilidade de mão de obra para efetuar a irrigação.
Resultados e discussões
Foram realizadas visitas mensais ao local para a tomada de medidas e avaliação do desenvolvimento das plantas coletadas.
Do total de 80 indivíduos coletados apenas 12 feneceram, indicando índice de sobrevivência de 85%, superior aos resultados obtidos por Calegari (2009), que obteve um índice de sobrevivência de 79,3%. Cabe frisar que em seu trabalho, Calegari realizou a coleta e o plantio em locais diferentes, havendo a necessidade de deslocamento com as plantas arrancadas, o que pode ter influenciado no índice obtido. Para esse trabalho não houve necessidade de deslocamento, pois as plantas resgatadas foram plantadas nos sacos plásticos logo após a retirada. A Tabela 1 apresenta os índices de sobrevivência e crescimento para cada espécie estudada.
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Apesar do alto índice médio geral de tolerância ao processo de arranquio e transplante, algumas espécies não responderam bem à técnica utilizada, em especial Pera glabrata e Guarea macrophylla. A primeira, apesar de relatada como planta de ampla distribuição geográfica por Lorenzi (1998), teve um índice de sobrevivência de apenas 25%. Guarea macrophylla, referenciada por Lorenzi (2002) como espécie climax, apresentou a morte de todos os exemplares coletados, sendo necessária a continuidade do estudo no sentido de identificar as causas do fenecimento.
Outros exemplares coletados apresentaram excelentes índices de adaptação, sendo que Calophyllum brasiliensis, denominada como clímax por Lorenzi (1998), apresentou índice de sobrevivência de 100% e já tem seus exemplares prontos para o plantio.
Já os índices de crescimento mostraram-se diferenciados, sendo que Rapanea ferruginea apresentou o índice de crescimento mais alto, 72%. Segundo Calegari (2009), a Rapanea ferruginea é uma planta pioneira, que tolera muito bem o transplante. A análise realizada indicou-a também como de crescimento mais rápido, se comparada com as demais. Todos os exemplares da espécie já estão aptos para o plantio em campo aberto.
A espécie denominada ?não identificada ? 4? também apresentou rápido crescimento, e é encontrada de forma abundante no local de coleta. A planta é uma liana, não arbórea, que também necessita ser identificada. Estas espécies estão sendo acompanhadas para determinar com precisão seus hábitos e sua identificação botânica.
O fato das plantas terem suportado o processo de adaptação sem irrigação promovida periodicamente deve-se provavelmente as condições do local em que foram alocadas, sob a proteção da copa de uma árvore inserida no mesmo local aonde realizou-se a coleta.
A utilização de substrato de plantio diferenciado do solo da região aparentemente não influenciou o desenvolvimento das essências nativas, conforme indicado por Guedes et al. (2005).
Com a continuidade do estudo, que será realizada no município de São Bernardo do Campo ? SP, será possível avaliar o desenvolvimento das plantas sob diferentes condições climáticas e pedológicas. Para possibilitar uma comparação, metades dos exemplares coletados serão plantados em São Bernardo do Campo e a outra metade no município de Bertioga.
Conclusão e recomendações
1- A coleta de essências nativas é uma prática viável para obtenção de mudas para projetos de recuperação.
2- Economiza-se tempo e recursos financeiros utilizando-se esse método, uma vez que o tempo de produção e menor.
3- É possível obter uma grande variedade de plantas nativas, incluindo-se espécies que usualmente não se encontram em viveiros, como lianas e arbustos.
Agradecimentos
Agradeço a Faculdade SENAI de Tecnologia Ambiental, pela colaboração no desenvolvimento do projeto e aos meus orientadores e co-orientadores pelo apoio recebido.
REFERÊNCIAS
BARBOSA, L. M. (Coord).Manual para recuperação de áreas degradadas do estado de São Paulo: matas ciliares do interior paulista. Instituto Botânico de São Paulo, 2006.
CALEGARI, L. Estudos sobre banco de sementes do solo, resgate de plântulas e dinâmica da paisagem para fins de restauração florestal, Carandaí, MG. Viçosa, 2009. Tese (Doutorado em Ciência Florestal) ? Universidade Federal de Viçosa.
GUEDES, D.; BARBOSA, L. M. e MARTINS, S. E.Composição florística e estrutura fitossociológica de dois fragmentos de floresta de restinga no Município de Bertioga, SP, Brasil. São Paulo:Acta Botânica Brasileira, 2005.
LORENZI, H. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil volume III. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2002.