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Reciclagem de carros no Brasil dá sinais de expansão

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As condições para a aquisição de um automóvel novo são cada vez mais favoráveis por incentivos do governo e maior poder aquisitivo da população. No entanto, basta observar uma avenida de grande tráfego para se deparar com uma infinidade de modelos em fim de vida útil.

Pesquisas já comprovam, há tempos, que um veículo com 20 anos de uso emite oito vezes mais poluentes que um zero quilômetro. O acúmulo de frota sem condições ideais de uso parece inevitável, ainda mais que o Brasil, ao contrário da maioria dos países desenvolvidos, fornece isenção de impostos e benefícios aos antigos.

Dados do Detran – Departamento Nacional de Trânsito ressaltam que em 2013, cerca de 3,6 milhões de novos utilitários e comerciais leves chegaram às estradas e apenas 538 mil de igual característica deixaram de circular. Soma-se a isso o fato do Brasil já ser o quarto maior mercado consumidor de carros do mundo e reciclar uma ínfima parcela do que produz.

Para tanto, falta legislação amadurecida que regule o setor e, com isso, o envolvimento de toda a cadeia, incluindo desmontadores, recicladores e destinadores em um sistema inteligente que preze a redução de impactos ambientais e tenha como chamariz a viabilidade econômica de todo o processo, o que já é plenamente possível.

Na Turquia, por exemplo, o reaproveitamento do aço dos automóveis atinge cerca de 80%. O país é referência internacional nesse quesito e os altos índices se devem à necessidade, já que os turcos não dispõem de grandes reservas de minério de ferro em seu território. Com isso, a escassez conferiu sustentabilidade ao setor.

Para Eduardo Augusto dos Santos, diretor da AIC Automotive Intelligence Consulting, deve-se pensar nos carros, caminhões e vans como acontece com os bois, dos quais de tudo se vale, do couro aos chifres.

Segundo ele, são vários os benefícios incutidos, como o reaproveitamento das peças em condições de uso, uma vez que são originais e já aprovadas pela indústria. “Essa sem dúvida é a principal parte dessa cadeia reversa, pois a reutilização impede a extração de matéria-prima, a fabricação de novos componentes e até mesmo a fundição de peças em excelente estado de uso, o que evita a extração desnecessária de minério, fabricação de peças novas e suas consequências ambientais, como a emissão de poluentes”, explica.

Outro fator importante, ainda de acordo com o especialista, é a triagem de peças por tipo de material, como plásticos e seus variados, alumínio, cobre, aço, bem como catalisador, líquidos e óleos, borrachas, pneus e demais materiais que, se classificados, valem dinheiro e geram muito interesse no mercado.

“E isso tudo criaria novos empregos, formação de mão de obra, além de movimentar a cadeia produtiva”, diz Santos, que ainda lembra que as próprias empresas de desmontagem utilizam materiais de veículos em suas instalações, como em montagens de docas e prateleiras.

Um outro aspecto importante é a remanufatura de peças usadas. “Esse processo reaproveita as carcaças de peças dentro de um critério pré estabelecido de remanufaturação e retorna ao mercado com garantia de um ano do fabricante”, afirma.

 Caminhões

A JR Diesel, empresa com quase 30 anos de existência, já coloca em prática esse conceito. Lá, 85% de um caminhão que chega, sempre fruto de leilões oficiais, é revertido em peças de reposição, 10% em materiais recicláveis e apenas 5% é descartado. “Temos a ideia de colocar vidraças na fachada da empresa para mostrar às pessoas que não temos nada a esconder. Apesar da atividade ser popularmente conhecida como desmanche, é importante que saibam que o nosso negócio é absolutamente legal”, conta Arthur Rufino, diretor de Marketing e Desenvolvimento da companhia.

Ele explica que após a desmontagem do veículo, além da rastreabilidade que comprova a origem da peça e é gravada em uma etiqueta, aplica-se uma classificação de qualidade A, B ou C. “O nível A diz que aquela peça está em perfeitas condições de uso pelo consumidor final, então terá o preço cheio da tabela. A nível B possui  condições de reuso, mas precisa de algum tipo de reparo, seja visual ou funcional”. Nesse caso, o diretor destaca que o cliente pagará menos, pois será responsável pelo conserto.

“Já a peça nível C, entendemos que não tem condições de ser reaproveitada ou é uma peça de segurança que simplesmente não pode ser vendida, independente da condição dela. Nesse tipo, fazemos a logística reversa, vendendo à indústria original que a fabricou”, destaca. Essa indústria, por sua vez,  aplica o processo de remanufatura, onde a peça é totalmente desmontada. Assim, os componentes saudáveis são reaproveitados e o restante vai para a reciclagem. “Os componentes saudáveis voltam à linha de produção junto com os novos e nasce uma peça remanufaturada com garantia de, em média, um ano e com um preço para o consumidor final cerca de 40% menor”, esclarece.

Para Rufino, a esperança da empresa é que a sociedade reconheça a sustentabilidade do negócio. “No Canadá, por exemplo, essa peça remanufaturada é conhecida como greenpart,  porque as pessoas compraram a ideia de que a usada tem um benefício ambiental muito expressivo”, conta. “Lá não se fala de preço, fala-se simplesmente que a sua manutenção ficou mais verde”, completa.

Segundo ele, após estudos de agências ambientais do país norte americano, constatou-se que para a fabricação de um motor de carro, são emitidos 270 kg de CO2 na atmosfera. Dessa forma, a partir do momento que se compra uma peça que já foi utilizada, de fonte confiável, evita-se que mais essa quantia de poluente seja emitida para atender a demanda.

Conforme o diretor, essa filosofia no Brasil traria um duplo benefício: economia financeira e redução de emissões ao meio ambiente. “Assim, um veículo em fim de vida útil não ficaria poluindo o lençol freático, o solo e a atmosfera”. E essa solução seria muito bem-vinda, visto que os pátios do Detran contam com mais de 1,5 milhões de veículos sem condições de circulação.

Atratividade comercial

De acordo com Santos, não é fácil introduzir processos desse porte sem compensação financeira atraente para que o cidadão participe de forma ativa do projeto, seja na reciclagem de leves ou pesados. Por isso, a associação da qual ele faz parte possui uma iniciativa chamada CTDVM – Centro Técnico de Desmantelamento de Veículos e Materiais.

Com isso, visa-se a desmontagem de veículos inservíveis, ou seja, sem valor econômico atrativo ou condições de reaproveitamento das peças, separando-as por materiais, como plásticos, cobre, aço, alumínio, borracha, óleo e outros. “Dessa forma, criamos valor e geramos o mínimo de resíduos possíveis, direcionando-os para tratamento adequado. Assim, geramos emprego, renda e viabilizamos o reaproveitamento dos materiais devidamente triados para uso na indústria”, explica.

A situação, portanto, está atrelada à uma questão maior, visto que cada vez mais se faz necessário a implantação de políticas de reciclagem de bens de consumo devido ao alto índice de lixo pós uso e seus impactos.

Santos informa que outro projeto importante é o CDVM – Centro de Desmontagem de Veículos e Materiais, que foi criado após estudos dos modelos existentes no mundo todo e que está sendo implantado em alguns lugares no Brasil em sua primeira fase. Conforme ele explica, já existem lugares em São Paulo que começam a implantar esse novo conceito de trabalho. Para que os projetos citados e outros que estão sendo preparados se concretizassem estão sendo feitas parcerias entre a AIC Automotive Intelligence Consulting, empresa que atua no setor automotivo, com especialistas nos processos de desmontagem de veículos. “Com isso conseguimos desenvolver várias atividades ligadas ao setor como software de gestão total de peças usadas, site de venda de peças usadas, certificação de empresas de desmonte, projeto ambiental para o setor, marcação das peças através de nanotecnologia, identificação das peças e veículos, além de treinamentos e cursos. Mas para que esse projeto conseguisse tomar corpo escolhemos empresas nas quais os proprietários acreditaram nos fundamentos apresentados e se dispuseram a implantar em suas empresas”, destacou. É o caso do Desmanche do Mineiro, que está em vias de adequação à lei estadual que prevê o cadastramento de todos os desmontes de carros no Detran e na Secretaria de Estado da Fazenda. Para tanto, esses locais devem manter rígidos mecanismos de controle das peças que chegam, etiquetando-as em um cadastro online que confere rastreabilidade ao produto recebido.

O objetivo, conforme Santos, é reduzir drasticamente o número de latrocínios, o roubo seguido de morte, que tem nos carros e na receptação de peças roubadas um dos principais motivos. Além de ajustar as instalações dos desmanches aos critérios de licenciamento ambiental. “Já montamos prateleiras para deixar as peças e as carcaças dos veículos longe do solo e construímos canaletas para que o óleo derrubado vá direto à caixa separadora, que vai segregar esse resíduo para levarmos à reciclagem”, conta Vitor Siman, sócio do futuro CDVM.

Segundo ele, a lei veio para proteger os que trabalham de forma correta e adquirem carros através das vias legais. “E, ao mesmo tempo, expor os que estão à margem da lei, aceitando carros de origem duvidosa”, ressalta.

O mesmo vem acontecendo com a empresa Vans Dumont, cujo trabalho de reestruturação já vem atraindo mais clientes. Jefferson Rufino, dono do negócio, explica que as motoristas de vans escolares, e as empresas de transportes, são as mais interessadas em peças de reposição a um custo menor. “Mas elas tinham receio de entrar aqui por medo de irregularidades devido à aparência do pátio em que as vans ficavam, todas empilhadas e sujas”, relembra.

Agora, já é possível visualizar a impermeabilização do terreno, as etiquetas com atestado de origem em cada peça, bem como a construção de baias que tratarão cada van de forma individual, incluindo o processo de lavagem e remanufatura. “Também instalamos uma caixa separadora de óleo com tampa transparente de acrílico, que é para os clientes verem que fazemos o tratamento desse resíduo líquido da melhor forma possível”, afirma.

Para Santos, essa é uma prova de que se a indústria motriz é rica, a reversa também é rentável e os atuais desmanches, após essa regularização,a tornariam viável, o que também conteria o índice de roubos. “Os proprietários dos desmanches deixariam a informalidade para se tornarem importantes agentes no negócio”, destaca.

Agora, veja a possível e viável reutilização dos principais componentes de um automóvel:

Pneus

Um dos itens mais reciclados de um carro no Brasil. Representam 3% do peso de um veículo.

As fábricas são obrigadas por lei a reutilizar os pneus e ele pode ter dois fins possíveis:

– Vendido de forma integral às cimenteiras para o coprocessamento, substituindo assim o cóqui de petróleo;

– Passar por lâminas e ser triturado. Nessa etapa, os fios de aço são retirados por um imã e o restante é refinado, obtendo-se um pó que é comercializado a vários tipos de indústria e pode virar sola de calçado, revestimentos de quadras e asfalto.

 

 

Vidro

O Brasil recicla, mensalmente, cerca de 150 toneladas de vidro automotivo.

Como não estilhaçam, os para-brisas são mais recicláveis que os demais vidros.

O material é triturado até virar um pó fino. Após isso, é necessário separar a membrana plástica grudada nele. Ela fica retida em uma peneira. Devido ao alto custo do processo, o vidro não volta a ser para-brisa, mas é vendido por, em média, 170 reais a tonelada e se transforma em garrafas.

Plástico

Um automóvel possui cerca de 50 tipos de plástico, o que equivale a 10% de seu peso total. A tendência é aumentar essa porcentagem para deixar o carro mais leve e reciclável.

Antes de serem moídas, as partes plásticas são separadas por tipo. Depois disso são fragmentadas. Os pedaços são compactados e estendidos, chamados de espaguetes. Então passam por uma guilhotina que os transformam em pequenos grãos. Ele perde poucas propriedades e, geralmente, volta ao veículo para compor partes internas, como painéis, e externas.

Metal

O metal é o material mais abundante em um carro. Representa até 76% de seu peso. Ele se transforma em aço, que pode ser reciclado infinitas vezes sem perder propriedades.

Após a descontaminação, a carroceria é moída ao passar entre cilindros trituradores, o que reduz a carcaça a pequenos pedaços. Um imã atrai o aço e o separa de outros materiais, como plástico, alumínio e vidros. Retirado dessa sobra, o alumínio é levado à reciclagem. Após o processo, tem-se a sucata ferrosa, vendida por 450 reais a tonelada. O material vira aço e é utilizado na carroceria e na parte interna de novos carros.

 

Fluídos

O óleo é um item que, por lei, tem de ser reaproveitado. Ele é descontaminado e vira um óleo mineral básico, que recebe aditivos.

Bateria

Os fabricantes são obrigados a reciclá-la. O chumbo ácido que a compõe é reutilizado.

 

 

 

 

 

 

Fonte: reportagem publicada na edição 113 da RMAI (julho/agosto 2014)

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