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Olimpíada “ficou devendo” a ecologia

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Terminam as Olimpíadas, trazendo o país de volta à realidade. Acabaram-se as transmissões diárias das competições, os movimentos da torcida. No Rio de Janeiro e nas outras cidades foram-se os turistas, esvaziaram-se os hotéis e restaurantes; estão minguando os dólares. É hora de voltar às preocupações com os problemas diários e mais prementes: o impedimento da presidente Dilma, a crise econômica e o desemprego, a falta de recursos… Fica, no entanto, a pergunta, principalmente para a cidade do Rio de Janeiro e o governo federal: valeu a pena a Olimpíada, será que os recursos gastos foram ou serão recuperados, os investimentos atenderam às promessas?

A realização de uma Olimpíada é sempre motivo de prestígio para o país que a sedia. Receber um evento destas proporções traz visibilidade para a nação e para o governo; é marca de poder econômico e capacidade de organização – ou pelo menos deveria ser. Além disso, depois de realizada, ficam as obras de infraestrutura incorporadas ao patrimônio das cidades. Los Angeles e Barcelona são exemplos de cidades que se beneficiaram com obras de melhoria da infraestrutura, realizadas por ocasião das Olimpíadas sediadas respectivamente em 1984 e 1992 nestas metrópoles. Mesmo assim, existem países que não têm interesse em sediar o mais importante evento esportivo do mundo. Recentemente a Suécia e a Polônia declararam não estarem interessados na organização de Olimpíadas em seus territórios, por terem outras prioridades para os recursos públicos.

Quando da fase de planejamento das Olimpíadas do Rio de Janeiro, os organizadores – Comitê Olímpico Brasileiro, prefeitura da cidade e governo do estado, entre os principais – se comprometeram a entregar diversas obras, que seriam necessárias para a realização do espetáculo. Além da construção dos estádios e quadras, era necessário entregar obras de transporte e revitalização urbana. Dentre estas, não foram entregues três importantes obras ambientais.

A primeira e mais importante delas é o saneamento da Baía da Guanabara, obra que a exemplo da despoluição do Rio Tietê, em São Paulo, se arrasta há mais de vinte anos. O estado havia prometido tratar pelo menos 80% do esgoto que deságua na baía, mas entregou efetivamente pouco mais de 45%. A previsão é de que a obra só seja definitivamente entregue em 2035. Outra obra ambiental anunciada e não entregue, foi a recuperação das lagoas de Jacarepaguá, assoreadas por despejos de esgoto. Por falta de estudos de impacto ambiental e suspeita de fraude na licitação das obras, o contrato não foi nem assinado e o projeto foi abandonado, já que não ficaria pronto a tempo.

Por final, para compensar a geração de gases que ocorreria em função do evento, foi anunciado que a cidade compensaria as emissões através do plantio de árvores. Estava planejado o cultivo de 34 milhões de plantas em todo o estado do Rio de Janeiro, mas apenas 5,5 milhões de mudas chegaram a ser plantadas. Segundo o governo, o cálculo das emissões foi refeito e concluiu-se que não era mais necessário o plantio da quantidade inicialmente prevista.

Assim, apesar da abertura da Olimpíada ter apresentado ao mundo uma defesa da ecologia, a proteção ao meio ambiente foi uma das promessas não atendidas pela organização do evento. Aqui cabe aquela frase que se usa por aí: “Vou ficar devendo pro senhor”.

Ricardo Rose

Ricardo Ernesto Rose;

Consultor, jornalista e autor, pós-graduado em gestão ambiental e sociologia. Graduado e pós-graduado em filosofia. Desde 1992 atua nos setores de meio ambiente e energia na área de marketing de tecnologias, trabalhando para instituições internacionais. Atualmente é consultor em inteligência de mercado no setor de sustentabilidade. É editor do blog “Da natureza e da cultura” (www.danaturezaedacultura.blogspot.com). Seu site profissional é: www.ricardorose.com.br

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